Hugo Brazão
Pele velha de cobra a mim serve
(2026)
Tudo pode adquirir valor. Valor monetário, valor de troca, valor de uso, valor simbólico. É uma questão de tempo, oportunidade e interesse.
Um gesto pode ser comercializável. As pedras da praia. Uma gota de suor. Roupa interior usada. O ar de Fátima. As solas velhas de um par de Havaianas.
O valor vem de outro lugar. Muitas vezes, não se relaciona com a função ou a semântica que determinado objeto, ideia ou ação tinha no momento da sua conceção. Vem depois. Vem de outros. Vem de uma transformação.
Coisas velhas podem ser caras! Coisas velhas mudam de significado!
Acumula-se.
Acumula-se porque tem de ser. Acumula-se porque pode vir a ter valor.
Não há escambo, só venda. A dádiva só se for divina.
Das opiniões poderemos dizer quase o mesmo: são caras! Valem ouro. Não se trocam. Quando são públicas aparecem de lugares privados. Também a nossa imagem se constrói através dos outros. Nenhum reflexo é neutro.
“Pele velha de cobra a mim serve” pode parecer uma loja de roupa de 2.ª mão, mas não é. Ou não deveria ser.
Nesta ocupação temporária há espaço para dádivas e trocas diretas, partilhas de opiniões semi-público-privadas, experimentar e pensar. Os recursos acumulados poderão ser libertados e partilhados. As peles velhas irão servir a outrem.
As peles mudam ou misturam-se? As suas histórias mantêm-se?
É na vivência do e com o outro que transformamos a nossa.
Location
Galeria do Sol, Porto
Dates
2026
Materials / media
.ea
Curated by Jesse James during FABRIC festival
Photo Credits
Scott Alario